Terapia hormonal e câncer de mama: o que os estudos mostram
- Daniela Marques Atkinson

- 15 de jul.
- 5 min de leitura
Quando o assunto é terapia hormonal na menopausa, poucas dúvidas geram tanta preocupação quanto o risco de câncer de mama.
Muitas mulheres convivem com sintomas importantes, como fogachos, insônia, irritabilidade, dores articulares e redução da qualidade de vida, mas acabam evitando o tratamento por medo de desenvolver câncer de mama.
Esse receio atual surgiu após a publicação de um estudo realizado há mais de 20 anos. No entanto, esse estudo avaliou hormônios diferentes dos utilizados atualmente e, desde então, novos estudos trouxeram informações importantes sobre o tema.
Mas o que aquele estudo realmente mostrou? Os estudos mais recentes chegaram às mesmas conclusões? Para responder a essas perguntas, primeiro precisamos entender de onde surgiu esse receio.
De onde surgiu o medo da terapia hormonal?
Grande parte desse receio surgiu após a publicação do estudo Women's Health Initiative (WHI), em 2002.
Nesse estudo, mulheres na pós-menopausa receberam uma combinação hormonal diferente dos hormônios utilizados atualmente na terapia da menopausa. Os resultados receberam enorme atenção da mídia e provocaram uma redução importante no uso da terapia hormonal em todo o mundo, além de aumentar o receio de muitas mulheres em relação ao tratamento.
Para entender esses números de forma mais prática, imagine 1.000 mulheres entre 50 e 59 anos que nunca utilizaram terapia hormonal. Ao longo de cinco anos, cerca de 23 delas serão diagnosticadas com câncer de mama.
No estudo WHI, publicado em 2002, esse número aumentou para aproximadamente 27 mulheres em cada 1.000 durante o mesmo período. Em outras palavras, foram observados cerca de 4 casos adicionais de câncer de mama para cada 1.000 mulheres acompanhadas durante cinco anos. Quando esse resultado é comparado com outros fatores de risco conhecidos para câncer de mama, observa-se que ele é semelhante ao associado ao consumo regular de álcool e muito inferior ao observado em mulheres com obesidade, como mostra a tabela abaixo.
O estudo WHI, publicado em 2002, avaliou uma combinação hormonal diferente da utilizada no tratamento atual da menopausa. Por isso, seus resultados não devem ser aplicados automaticamente aos tratamentos utilizados hoje.
Comparação entre aumento do risco de câncer de mama associado a diferentes fatores | Casos adicionais de câncer de mama por 1.000 mulheres em 5 anos |
Terapia hormonal do estudo WHI (2002) | +4 |
Consumo de duas ou mais doses de álcool por dia | +5 |
Tabagismo atual | +3 |
Obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²) | +24 |
Atividade física regular (pelo menos 2,5 horas por semana) | -7 |
Fonte: Adaptado de dados publicados pelo Women's Health Initiative (WHI) e pela British Menopause Society.
Os dados apresentados para a terapia hormonal referem-se exclusivamente ao tratamento avaliado no estudo WHI de 2002, realizado com hormônios diferentes dos mais utilizados atualmente. Embora esse estudo tenha dado origem ao receio que persiste até hoje, ele representa apenas uma parte do conhecimento disponível.
Terapia hormonal e câncer de mama: que os estudos mais recentes mostram?
Nas últimas duas décadas, novas pesquisas ampliaram significativamente o conhecimento sobre terapia hormonal e câncer de mama.
A principal conclusão desses estudos é que o risco associado à terapia hormonal é muito mais complexo, pois depende do tipo de hormônio utilizado, da idade da mulher, do momento em que o tratamento é iniciado e do tempo de uso.
Atualmente entende-se que os resultados do estudo WHI não podem ser aplicados automaticamente aos tratamentos mais utilizados atualmente, pois os hormônios avaliados naquele estudo são diferentes daqueles utilizados na prática clinica atual.
Além disso, os estudos mais recentes não confirmaram o mesmo aumento de risco observado no WHI. Em alguns estudos, mulheres que iniciaram a terapia hormonal antes dos 60 anos ou nos primeiros anos após a menopausa não apresentaram aumento do risco em relação às que não utilizaram terapia hormonal. Esses resultados mostram que o risco é muito menor do que se imaginava há duas décadas.
Essas evidências mudaram a forma como a terapia hormonal é recomendada atualmente. Hoje sabemos que muitas mulheres podem utilizá-la com segurança quando existe indicação, avaliação individualizada e acompanhamento médico. O objetivo da avaliação é identificar quem tem maior probabilidade de obter benefícios do tratamento e quem deve optar por outras estratégias.
Se você ainda tem dúvidas sobre os benefícios e os riscos da terapia hormonal, leia também o artigo Mitos e Verdades sobre Terapia Hormonal na Menopausa.
Como avaliar se a terapia hormonal é uma boa opção para você?
A decisão de utilizar terapia hormonal deve ser individualizada. O objetivo da avaliação médica é identificar se os benefícios esperados do tratamento superam os possíveis riscos para aquela mulher. Para isso, são considerados a intensidade dos sintomas, o impacto na qualidade de vida, o histórico de saúde e os fatores de risco.
Quando os sintomas são intensos, seus efeitos vão muito além do desconforto. Dormir mal, sentir menos disposição para a prática de atividade física e ter mais dificuldade para manter hábitos saudáveis podem repercutir na saúde e na qualidade de vida ao longo do tempo.
Quando há indicação, a terapia hormonal pode aliviar esses sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida. Além de ser o tratamento mais eficaz para fogachos, ela também pode melhorar o sono, a síndrome geniturinária da menopausa e, em muitas mulheres, reduzir dores articulares e melhorar o bem-estar geral.
Com o controle dos sintomas, muitas mulheres conseguem recuperar a disposição para praticar atividade física, cuidar melhor da alimentação e retomar hábitos saudáveis com mais facilidade. Embora a terapia hormonal não substitua um estilo de vida saudável, ela pode facilitar essas mudanças e contribuir para uma melhor qualidade de vida.
Por isso, a avaliação médica individualizada é fundamental. Ela permite identificar quais mulheres têm maior probabilidade de se beneficiar do tratamento e definir a estratégia mais adequada para cada caso.
Conclusão
O medo da terapia hormonal foi influenciado por um estudo publicado há mais de 20 anos. Hoje sabemos que esse tema deve ser interpretado à luz das evidências científicas atuais e dos tratamentos hormonais utilizados atualmente, que diferem daqueles avaliados naquele estudo.
Hoje sabemos que muitas mulheres deixam de receber um tratamento que poderia melhorar significativamente sua qualidade de vida por receios baseados em informações incompletas ou desatualizadas. Quando existe indicação, a terapia hormonal pode trazer benefícios importantes e deve ser avaliada de forma individualizada.
Se os sintomas da menopausa estão comprometendo sua qualidade de vida, converse com um médico experiente no tratamento da menopausa. Uma avaliação individualizada permite definir se a terapia hormonal é a melhor opção para o seu caso. Decisões sobre a terapia hormonal não devem ser tomadas com base no medo, mas nas evidências científicas atuais e nas características individuais de cada mulher.
Se você está na menopausa e ainda tem dúvidas sobre a terapia hormonal, uma avaliação individualizada pode ajudar a esclarecer seus riscos, benefícios e qual é a melhor opção para o seu caso.
Dra. Daniela Marques Atkinson
Endocrinologia e Metabologia
CRM 28824 | RQE 21349
Especialista em saúde hormonal, menopausa e metabolismo
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